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Como surgiu a tradição da Árvore de Natal

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Como surgiu a tradição da Árvore de Natal

Muitos alunos me perguntam sobre a tradição da Árvore de Natal, como e por que surgiu e se isso era apenas fruto do sincretismo católico medieval no início da Idade Média.

Ainda que essa tradição realmente mescle objetos de culto e crença pagãos com a celebração cristã, – algo básico para o sucesso da expansão cristã entre os povos “bárbaros” no início da Idade Média -, há uma história muito interessante de como especificamente a árvore vai ser inserida no culto natalino.

Tudo começou com São Bonifácio, conhecido como o “Apóstolo dos Germânicos”. Bonifácio nasceu na Inglaterra, em 680. Aos sete anos ingressou em um mosteiro beneditino, estudando e se destacando por sua devoção e inteligência. Bonifácio, porém, se sentia vocacionado para a vida missionária, sobretudo entre o povo frísio, nos Países Baixos.

Por volta de 723, estava percorrendo a Alemanha onde encontrou, na véspera do Natal, uma pequena vila próxima a Geismar (Turíngia) na qual os habitantes realizavam sacrifícios humanos. Eles tinham a tradição de sacrificar uma criança aos pés de um carvalho, conhecido como “Carvalho do Trovão”, em homenagem ao deus Thor (deus do trovão, na mitologia nórdica).

Bonifácio e os outros missionários que o acompanhavam chegaram na vila a tempo de impedir mais um infanticídio. No momento em que o carrasco levantou o pesado machado de pedra, Bonifácio, com seu báculo na mão exclamou:

Aqui está o Carvalho do Trovão, e aqui a cruz de Cristo quebrará o martelo do falso deus, Thor.” (SEWELL, 2014).

Ao descer o machado para matar a criança, Bonifácio colocou a cruz do seu báculo como proteção, e o machado de pedra se quebrou. Bonifácio, então, exclamou:

Ouvi, filhos da floresta! Nenhum sangue fluirá esta noite a não ser a pena que tenho tirado do seio de uma mãe. Pois esta é a noite de nascimento do Cristo, o filho do Todo-Poderoso, o Salvador da humanidade. Mais justo é Ele que Baldur, o Belo, maior que Odin, o Sábio, mais gentil que Freya, o Bom. Desde que Ele veio, o sacrifício terminou. O escuro, Thor, em quem vocês têm chamado em vão, está morto. Nas profundezas de Niffelheim ele está perdido para sempre. E agora, nesta noite de Cristo, vocês começarão a viver. Esta árvore de sangue não escurecerá mais a sua terra. Em nome do Senhor, eu vou destruí-lo.” (SEWELL, 2014).

O missionário, então, desferiu um grande e único golpe de machado contra a árvore. O povo do vilarejo esperava que Thor destruiria aquele sacrílego. Porém, o que aconteceu foi que um forte vento soprou, derrubando a árvore, arrancando até suas raízes.

Atônitos diante disso, ouviram Bonifácio mais uma vez exclamar, apontando para um pinheiro na floresta:

Esta pequena árvore, uma criança da floresta, será sua árvore sagrada esta noite. É a madeira da paz […] É o sinal de uma vida sem fim, pois suas folhas são sempre verdes. Veja como aponta para o céu. Que isso seja chamado de a árvore do filho de Cristo; reúnam-se sobre ela, não na floresta selvagem, mas em suas próprias casas; ali não abrigará atos de sangue, mas dons amorosos e ritos de bondade.” (SEWELL, 2014).

Com a madeira do carvalho derrubado, Bonifácio construiu uma capela e todo aquele povo se converteu ao cristianismo. Desde então, sobretudo em solo germânico, começou e se expandiu a tradição de, na véspera do Natal, se cortar um pinheiro, colocar em casa, como se fosse a árvore do Salvador Jesus Cristo, simbolizando que nenhuma criança precisa ser sacrificada, pois o Filho de Deus morreu para cessar todo o sacrifício. Lutero foi um daqueles que tinha essa tradição oriunda de sua família e a legou para o posterior protestantismo.

Prof. Lucas Gesta – Filigranas de História da Igreja.

Referências Bibliográficas:

-GONZÁLEZ, J. L. História Ilustrada do Cristianismo. A era dos mártires até a era dos sonhos frustrados. São Paulo: Vida Nova, 2011.

-SEWELL, M. Thor, St. Boniface, and the Origin of the Christmas Tree. Retirado de:https://mtncatholic.com/thor-stboniface-and-the-origin-o…/. Acesso em 05/12/2018. Este artigo foi útil, pois o autor consultou uma fonte em inglês a qual não tenho acesso: o artigo “Celebrating a Merry Catholic Christmas: A Guide to the Customs and Feast Days of Advent and Christmas” do Dr. Rev. William Saunders.

-WILLIAMSON, J. M. The Life and Times of St. Boniface. London: Henry Frowde, 1904.

10 COMENTÁRIOS

  1. Excelente explicação Lucas!Prossiga rumo a seu destino como Arqueólogo do Tempo desvendando os mistérios para todos nós! Forte abraço, Educadora Religiosa e Historiadora K.Gusmão

  2. Saudações Lucas,

    acabei chegando ao site através do seu canal no YouTube e me chamou atenção esse texto.

    Como História do natal e da árvore de natal são áreas/temas que acabaram cruzando minhas pesquisas, levantei uma bibliografia sobre o tema ao longo dos anos e gostaria de partilhá-la com você, dada a complexidade dele.

    Antes, é importante mencionar que essa narrativa hagiográfica de São Bonifácio é muito parecida com a de São Wilfrid (Wilfredo, Vilfredo), e encontra ainda paralelos com outras narrativas que falavam de árvores e flores surgindo miraculosamente em pleno inverno, e num caso até o próprio Jesus menino toma parte no relato – contudo, todas elas são posteriores, e não dão conta de explicar as origens do que se designou mais tarde como árvore de Natal (sécs.XIV-XVI).

    Por isso, achei importante indicar algumas referências aqui:

    A) Fontes Documentais:

    BOWLER, Gerry. The world encyclopedia of Christmas. Toronto: McClelland & Stewart, 2000.

    GOETHE, Johan Wolfgang von. Os sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Hedra, 2012.

    HOFFMANN, E.T.A. Quebra-nozes & Camundongo Rei. 1. ed. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2011.

    KARAS, Sheryl A. The solstice evergreen: the history, folklore and origins of the Christmas tree. Rev. and expanded ed. Fairfield, CT: Aslan Publishing, 1998.

    MATTHEWS, John. The winter solstice: the sacred traditions of Christmas. 1st Quest ed. Wheaton, Illinois: Quest Books, 1998.

    NISSENBAUM, Stephen. The battle for Christmas. New York: Alfred A. Knopf, 1996.

    PERRY, Joe. Christmas in Germany: a cultural history. Chapel Hill: The University of North Carolina Press, 2003.

    RUSSOW, Balthasar. The Chronicle of Balthasar Russow. Madison, Wisconsin: Baltic Studies Center, 1988.

    SNYDER, Phillip V. The Christmas tree book. Nova Iorque: The Viking Press, 1976.

    TILLE, Alexander. German Christmas and the Christmas Tree. Folklore, v.III, p.166-182, jun. 1892. Disponível em: https://archive.org/details/folklore03folkuoft.

    WORKMAN, W. H. Olden Time Holiday Festivities. Annual Publication of the Historical Society of Southern California and Pioneer Register, Los Angeles, v.5, n.1, p.22-24, 1900. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/41169632.

    B) Bibliografia Geral:

    ALBERS, Henry H.; DAVIS, ANN K. The Wonderful World of Christmas Trees. Parkersburg, Iowa: Mid-Prairi Books, 1997.

    BALDOVIN, John F. Christmas. In: JONES, Lindsay. (Ed.). Encyclopedia of religion. 2nd ed. Farmington Hills, Milwaukee: Thomson Gale, 2005. 3 V.

    BUCHER, Richard P. O Christmas Tree: The Origin and Meaning of the Christmas Tree. S.d. Disponível em: https://www.christianmom.com/forum/christianmom-discussion-forums/discussion-forum/5731-o-christmas-tree-the-origin-and-meaning-of-the-christmas-tree.

    BRUNNER, Bernd. Inventing the Christmas Tree. New Haven: Yale University Press, 2012.

    FEARS, J. Rufus. Sol Invictus. In: JONES, Lindsay. (Ed.). Encyclopedia of religion. 2nd ed. Farmington Hills, Milwaukee: Thomson Gale, 2005. 12 V.

    FRESE, Pamela R.; GRAY, S.J.M. Trees. In: JONES, Lindsay. (Ed.). Encyclopedia of religion. 2nd ed. Farmington Hills, Milwaukee: Thomson Gale, 2005. 14 V.

    GULEVICH, Tanya. Encyclopedia of Christmas and New Year’s celebrations: over 240 alphabetically arranged entries covering Christmas, New Year’s, and related days of observance. 2nd ed. Detroit, Michigan: Omnigraphics, 2003.

    MILES, Clement A. Christmas in ritual and tradition, Christian and Pagan. Toronto: Bell and Cockburn, 1912. Disponível em: https://archive.org/details/cihm_81125.

    NERY, Irmão. Natal: Teologia, Tradição e Símbolos. 10 ed. Aparecida: Editora Santuário, 2008.

    PERROT, Martyne. Noël. Paris: Editions le cavalier bleu, 2002.

    RÄTSCH, Christian; MÜLLER-EBELING, Claudia. Pagan Christmas: the plants, spirits, and rituals at the origins of yuletide. Rochester, Vermont: Inner Traditions, 2006.

    RULAND, Josef (Org.). Navidad en Alemania. 2.ed. rev. Bonn: Inter Nationes, 1992.

    SALAMONE, Frank A. (Ed.). Encyclopedia of religious rites, rituals, and festivals. Nova Iorque; Londres: Routledge, 2004.

    VALLIERE, Paul. Tradition. In: JONES, Lindsay (Ed.). Encyclopedia of religion. 2nd ed. Farmington Hills, Milwaukee: Thomson Gale, 2005. 13 V.

    WEISER, Francis X. Handbook of Christian Feasts and Customs. New York: Harcourt, Brace and World, 1958.

    Abraço fraterno.

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