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Jacob Baradeus e um outro olhar sobre a religiosidade cristã no início da Idade Média oriental

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Esse breve relato tem o objetivo de apresentar um olhar histórico distinto da religiosidade cristã medieval. Esse novo olhar baseia-se em pensar a religiosidade cristã fora do continente europeu, longe daquela sociedade feudal que aos poucos se formava, mas ainda assim tendo no cristianismo a sua base.

Faremos isso a partir da figura do monge Jacob Baradeus (latinização do nome siríaco Yaqub al-Barada’i), bispo sírio, originário da cidade de Tela, filho de sacerdote cristão, que seguia uma doutrina cristológica marcadamente não-calcedoniana. Ele foi responsável por um grande “avivamento” cristão (especialmente das igrejas ortodoxas sírias miafisitas), espalhando o evangelho, a partir da Síria, por diversas partes do oriente.

Jacob vivia em uma época de grandes conflitos doutrinário-teológicos onde os imperadores romanos interferiam profundamente nessas questões, prendendo, exilando e sufocando todas as opiniões contrárias à doutrina cristã ortodoxa calcedoniana. A doutrina da Igreja Síria Ortodoxa de Antioquia seguia as convenções teológicas alexandrinas e pregava a “única natureza” de Cristo, ou seja, ele era um “de” duas naturezas após a encarnação, e não um “em” duas naturezas como Calcedônia afirma. Como pregava Cirilo de Alexandria, estes criam que havia apenas uma natureza encarnada. Isto gerou, por séculos, grandes perseguições, prisões e excomunhões contra aqueles que criam e ensinavam essa doutrina.

Durante o século VI, após a elevação de Justino ao posto de imperador, uma grande perseguição foi suscitada, pois este era grande defensor da doutrina calcedoniana. Justiniano, sobrinho de Justino o sucedeu ao trono de Constantinopla em 527. Justiniano não governou sozinho, pois sua esposa, Teodora, foi coroada co-imperatriz e exercia grande influência em seu reinado, muitas vezes rivalizando com o imperador.

Nesse sentido, Justiniano, como imperador de Roma, era defensor de Calcedônia, porém, sua esposa foi uma árdua protetora e auxiliadora das proposições não-calcedonianas. O patriarca de Alexandria, Teodósio, foi deposto pelo imperador, e em seu lugar foi instalado um bispo calcedoniano. Teodora, porém, ofereceu abrigo e o guardou no seu mosteiro em Constantinopla (uma espécie de refúgio a todos aqueles que defendiam a doutrina da “natureza única” de Cristo). Teodósio organizou uma espécie de resistência, com a ajuda da imperatriz, e assim ordenou bispos para viajarem à Síria e ao oriente a fim de revitalizar e difundir ainda mais a sua fé. Um dos dois bispos consagrados era o monge Jacob Baradeus.

Baradeus, ao ser enviado de volta a sua terra natal como bispo missionário de Edessa, durante 37 anos pregou em diversas partes do oriente, livrando-se da perseguição imperial por andar sempre em trajes pobres, confundido muitas vezes com um mendigo (daí o apelido Baradeus, derivado de “baradai” que significa vestido de trapos).

Em seu ministério ordenou cerca de 27 bispos, centenas de milhares de sacerdotes, que construíram centenas de igrejas não-calcedonianas em todo o Oriente, além de reativar aquelas que pela perseguição haviam sido sufocadas. Nos seus relatos, conta-se que curou enfermos, ressuscitou mortos, livrou cidades de destruição iminente pela sua intercessão, além de conhecidamente praticar a glossolalia e outros dons místicos.

Outro fator interessante é que os “jacobitas” (assim ficaram conhecidos os seguidores e membros das igrejas sírias ortodoxas que seguiam Baradeus) não contestavam a hierarquia territorial das igrejas calcedonianas; em vez disso, construíam suas próprias casas de culto e formavam suas comunidades. Havia uma forte separação entre Igreja e Estado. Outra característica era o pequeno número de bispos em relação aos clérigos que lhes dava a imagem de serem menos hierárquicos e mais próximos do povo. Um fator que os ajudou a sobreviver, sem a ajuda do Estado (e com a perseguição deste) foi a grande rede de mosteiros.

Jacob Baradeus deixou um grande legado após sua morte (no monastério de Romanus em 30 de julho de 578). Por volta do ano 600, encontravam-se igrejas jacobitas desde o mar Egeu até a Armênia e além da fronteira do território persa. Em toda a Síria e Mesopotâmia centenas de igrejas foram plantadas, sendo que nessas regiões, o número de jacobitas era bem superior ao número de calcedonianos, que aliás era a Igreja oficial de Constantinopla e, assim, do Império.

A sua Igreja superou diversas perseguições através dos séculos, como a ascensão do Islã (que de certa forma não causou tantos conflitos, pois eles não eram apoiados pelo Estado romano) – já no século VII -, as invasões dos cruzados – seis séculos a frente -, e a conquista dos mongóis à Pérsia e Mesopotâmia no século XVIII.

A prova de seu sucesso é que encontramos até hoje dezenas de milhares de cristãos “jacobitas” (eles se denominam Sírios ortodoxos ou Sírios ortodoxos ocidentais ou, em português, “sirianos”) espalhados por todo o mundo. O nome de sua igreja é Igreja Sirian (ou siriana) Ortodoxa de Antioquia.

A história deste homem nos mostra que, durante a era medieval, fora da Europa, havia um ambiente de grande florescimento do cristianismo, que estava em plena expansão missionária e plena diversificação doutrinária. A despeito das perseguições dos mulçumanos, dos mongóis e dos próprios cristãos ocidentais, as Igrejas cristãs do Oriente continuaram firme em seu propósito de evangelização e doutrinamento dos povos.

Conhecer a história desses cristianismos se torna fundamental para compreendermos a história do cristianismo como um todo, analisando-o globalmente, e não a partir de uma única ótica – a Ocidental.

Bibliografia Consultada:

-IRVIN, D. & SUNQUIST, S. História do movimento cristão mundial. V. 1: do cristianismo primitivo a 1453. Paulus: São Paulo, 2004.
-RAJAN, K.M. ST. Yacoub Burd’ono. In: Malankara Syriac Christian Resources. Extraído de: http://SyriacChristianity.org/

– Prof. Lucas Gesta – Filigranas de História da Igreja

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