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O Cristianismo e sua adaptação

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Na história da humanidade nenhuma religião alcançou tamanha força, poder, adeptos, formas doutrinárias diferentes, diversidade cultural e alcance que o Cristianismo. Ele se distingue de todas as outras experiências religiosas conhecidas pela História. Talvez, além da quantidade de pessoas que praticam essa religião (pouco mais de 2 bilhões) e da duração dela no tempo (cerca de 2.000 anos), a principal característica que distingue a religião cristã das demais – e também o seu maior ponto forte e mais interessante para as ciências humanas – seja sua capacidade de diversificação, mudança e adaptação cultural, mantendo a essência de sua doutrina.

O cristianismo está presente em todo o planeta; cada continente, e dentro destes, cada país, e dentro destes, boa parte das cidades, vilas ou tribos já tiveram contato direto ou indireto com os cristãos e suas doutrinas. Porém, embora seu alcance encontre realidades culturais com milhares de formas culturais diferentes, ele não impõe, na essência de sua doutrina, padrões rígidos culturais para sua aceitação. Por exemplo, para que uma pessoa se torne um muçulmano, ela deverá aprender uma única língua – o árabe -, pois seu livro sagrado só pode ser difundido nesta língua; além disso, deverá dirigir suas orações para um ponto geográfico específico no Oriente; somando-se a isso, deve se comprometer, ao menos uma vez na vida, em peregrinar para este ponto (Meca); outro fator é que as mulheres islâmicas têm de usar um traje muito específico, escondendo boa parte de seu corpo, e, em alguns casos, todo o corpo (e assim, nos países mais frios, como nos mais quentes, onde pode trazer malefícios à saúde). Poderíamos citar outras religiões como o budismo, o qual exige o aprendizado da cultura oriental, seus sacerdotes só fazem orações e ritos na língua natal da religião, além de usar apenas uma roupa específica em todo o mundo. O hinduísmo também se reporta da mesma maneira, com o acréscimo de somente poder ser um hindu, aquele descendente das castas originais da região geográfica em que a religião nasceu. Poderíamos citar centenas de casos, mas estes nos bastam.

Porém, o Cristianismo é um tanto diferente. Ele se adapta ao local em que se estabelece, ele traduz a sua cultura para a cultura local, ele aceita, transforma e é transformado culturalmente em todos os casos aonde chega. O livro sagrado cristão é traduzido, todos os anos, para centenas de idiomas em todo o mundo – não é necessário aprender hebraico, aramaico e grego (as línguas em que a Bíblia foi escrita) para praticar a religião. O sacerdote cristão, em cada canto do mundo, usa as roupas específicas de sua cultura (lembramos aqui que sempre há uma tentativa de aculturação, principalmente evidenciada pelos cristianismos ocidentais, mas que é datada no tempo e hoje, em certo ponto, superada) e podemos encontrar um bispo católico romano usando todo um aparato de roupas, cores e símbolos de seu traje que reportam a um milênio de história, como podemos encontrar um pastor evangélico celebrando cultos de camisa, short e chinelo. Se formos a outras partes do mundo, veremos que cada sacerdote usa trajes específicos e totalmente distintos dos seus irmãos distantes geograficamente; além disso, ao redor do mundo os sacerdotes também recebem nomes diferentes.

Se observássemos as Igrejas cristãs, veríamos também que possuem arquiteturas diferentes conformadas com a cultura local; possuem práticas litúrgicas muito diversas, hierarquias também distintas, sem contar nas inúmeras variantes de ritos, interpretações doutrinárias, formas de proceder e expandir sua mensagem, diferentes. O mesmo se dá com seus fiéis, tão diferentes em cada parte do mundo, cada um usando os trajes e vestes de sua cultura, cada um se alimentando de acordo com o que sua sociedade determina, cada um recebendo ou rejeitando práticas muito distintas.

Assim, devemos valorizar cada manifestação cultural cristã e procurar conhecê-la. Mas acima de tudo, conhecer a nossa forma de manifestar o cristianismo e expandi-la, desenvolvê-la. Até quando ficaremos presos a padrões culturais exteriores, sejam teológicos ou litúrgicos?

Sejamos cristãos brasileiros! E só isso! Valorizemos a música cristã brasileira, a teologia brasileira, a eclesiologia brasileira, a liturgia brasileira!

Prof. Lucas Gesta – Filigranas de História da Igreja

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